“Burocracia sem mulher fica pela metade”

percursos institucionais de luta por direitos no Brasil pós-redemocratização

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21874/rsp.v76ic.11000

Palavras-chave:

feminismo de estado, burocracia, igualdade de gênero, ativismo institucional, contexto político

Resumo

O ativismo institucional, repertório de ação política caracterizado pela atuação de militantes de movimentos sociais na burocracia estatal, foi adotado por diversos movimentos sociais no Brasil, principalmente a partir da redemocratização do país, como forma de concretização de demandas. Entre estes, parcelas de movimentos feministas também passaram a buscar vias de luta por direitos para além das instâncias tradicionais de representação e dos repertórios característicos da ação direta. Partindo da premissa que a presença de mulheres na estrutura burocrática do Estado é importante para a representatividade de gênero na administração pública, neste artigo, a partir de revisão bibliográfica, destaco resultados e momentos importantes do processo de institucionalização das demandas “de mulheres” no Brasil. Para tanto, recuperamos as teóricas feministas, principalmente aquelas que teorizaram sobre o “Feminismo de Estado”, e os estudos sobre movimentos sociais, para captar uma tentativa de linha do tempo na atuação dessas mulheres e em suas conquistas institucionais nos diferentes momentos da relação entre o Estado e movimentos sociais. Nesse sentido, destacam-se como resultados o levantamento de fatores fundamentais para o sucesso dessa incursão ao Estado, sendo eles o direcionamento político dos governos, com ênfase à esfera nacional, e as estratégias de acesso criadas pelas mulheres.

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Biografia do Autor

Milena Cristina Belançon, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá – PR, Brasil

Doutoranda e Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia "Transformações da Participação, do Associativismo e do Confronto Político" (INCT Participa) e do Grupo de Pesquisa “Sociedade Civil, Instituições Políticas e Democracia” (SociDem/UEM).

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Publicado

2026-01-23

Como Citar

Belançon, M. C. (2026). “Burocracia sem mulher fica pela metade”: percursos institucionais de luta por direitos no Brasil pós-redemocratização. Revista Do Serviço Público, 76(c), 102-124. https://doi.org/10.21874/rsp.v76ic.11000

Edição

Seção

Edição Especial: Mulheres na gestão pública (encerrada)